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(im) Preciões

sexta-feira, outubro 21, 2005

20.5.05


*****
Fala-me de tempo...
*****

Fala-me de tempo
Mas em streap-teases de alma
Rasga do peito o momento
Dissecado no preciso instante
Em que me conjugaste o verbo amar
Fala-me de tempo
Daquele que nos invade por dentro
No preciso relanço de um olhar
Em que o tempo demora o tempo
Necessário para nos amarrar
Fala-me de tempo
Daquele que se sussurra
No toque húmido dos lábios de beijar
Que se agridem de tanto se gostar
E se prometem promessas de salivar
Antes do tempo de ser tempo de se dar
Fala-me de tempo
E na intensidade com que pões
O indicador entre os lábios
E desenhas orgias redondas e molhadas, depois
Mordiscadas em línguas usadas por sábios
No tempo de ser tempo de todas as dissertações
Fala-me de tempo
Quando é tempo de me percorreres
No dar salgado do amor de pertenceres
E me deixas extasiado sem saberes
Que esse tempo dura tempos nos meus mares
Que me fazem perder o tino dos navegares
Porque eu falo-te desse tempo
Em que te vivo por dentro
E te meço em pulsares
Nos tempos em que o tempo é só instante
Tão intenso e penetrante
Que o poderia chamar, por maldade
De pura felicidade.

*****
António San

11.5.05

*****
Manda-me um Poeta
(ou o exacto da desilusão)
*****
Manda-me um poeta
Porque dele preciso
Para que me cante
O sentido do sentido
E me mostre o tino
Que do meu já desatino.
Manda-me um poeta
Que saiba talhar a palavra
Em gomos de viver e sentir
E a desconjugue deste morrer
Em futuros que hão-de vir.
Manda-me um poeta
Que tenha comido o pó
Da minha caminhada agreste
Feita de luta e de vitória
De derrota e de dó
E do modo como me viveste.
Manda-me um poeta
Que saiba tanger o instante
E me descreva com emoção
O segundo exacto da desilusão
E depois me embale cantante
Na palavra trabalhada
Da promessa dourada.
Manda-me um poeta
Que me fira mais o coração
Com o poder dessa paixão
Imortalizado em Eva e em Adão
Em Romeu e Julieta
E nas gotas do amor sangrado
Drenado numa qualquer valeta.
Manda-me um poeta
Porque dele preciso
Para me rasgar do peito
Este sentir conciso
Que não sei expressar
Nos versos de beijar
Quando me abandonas o leito.
Manda-me um poeta
Lírico, trágico ou realista
Qualquer um me serve
Desde que invente nova grafia
(Que o meu eu já não te escreve)
Em caracteres do novo afago
.O meu escrever tornou-se preste
Deixou-se tolher pelo embargo.
Manda-me um poeta
Porque dele preciso
Mas que venha rápido
A tempo de me mostrar
A cor da madrugada
No seu canto pronunciada.
Manda-me um poeta...
Porque dele preciso!
*****
António San

3.5.05


*****
Oração
*****

Foi a brisa, Senhor, que consolou em afagos
O que de mim resta e são restolhos
Já não sou mais do que simples retalhos
Por não a reflectir na luz dos meus olhos.
Vivo os momentos desse beijo desejado
Que de tão vividamente imaginado
O desejo de nele beber amor ardente,
Se torna prisão, cela e castigo permanente.
E não sofro, para meus pecados, o suficiente
Que me faça ver, Senhor, o quanto erro
O quanto perco por só desejar timidamente
E não quebrar o que me amarra a este cerro.
Porque me permites, Senhor, viver tão fortemente
Neste ficar inquieto de querer partir
Aventurar-me e perder-me como adolescente
Nos braços que se me estendem de advir.
Liberta-me, senhor, desta cegueira que cega
Deste sentir que tão pouco se permite
Dá-lhe fogo, chama e a vida de quem pega
No amor e o saboreia, sem lhe querer adivinhar o limite.
*****
*****
António San

27.4.05


*****
Interiores
*****
De todas as palavras com que já te pensei
Nenhuma te significa
Nenhuma te identifica
Nenhuma se te aplica
De todas as palavras com que já te imaginei
Nenhuma é tão forte
Que possa nela conter
O simples prazer
De te ter
De te ser
De me saber.
De todos os nomes com que já te desbravei
Nenhum é tão grandioso
Que não me deixe ansioso
Por outro encontrar
Que tome o seu lugar
E defina a perfeição
Do saber e da razão
Que me acalme esta intuição
De que é preciso continuar.
De todos os nomes com que já te amei
Nenhum é por demais intenso
Que me tire donde pertenço
E me faça voar suspenso
À procura do vasto imenso
Que ainda não encontrei.
De todos os nomes com que já te signifiquei
Nenhum te significa
Nenhum te identifica
Nenhum se te aplica
Porque és simplesmente mais além
Que simples adornos
Toscos contornos
Na semântica do definir
Esta coisa que é o sentir.
De todas as palavras com que já te desejei
Nenhuma me serve
Nenhuma me satisfaz
Nenhuma te completa
Mas nenhuma me faz voltar atrás.
De todos os nomes com que já me dei
Nenhum te assegura
Nenhum te desiste
Nenhum te perdura
Nesta ténue linha que subsiste
De todos os nomes com que já te chamei
Nenhum deles ainda ouviste
Porque os disse baixinho
Com palavras de silêncio
Naquele olhar que não viste.
*****
António San

11.4.05

*****
Embondeiro
*****

Hoje sentei-me debaixo de tiEmbondeiro
E, ainda que por momentos,
Viajei no tempo do foi assim...
Das savanas extensas feitas de mim
Das queimadas redentoras sem fim
Das chuvas torrenciais do novo capim
Na terra dos cheiros a mandioca e açafrão
E de todas as metamorfoses de que foste guardião.
E senti, no rosto, o beijo de picante paladar
Daquela negra de fascinante olhar
Semi-deusa, semi-nua em corpo de enfeitiçar
Que dentro ti me mostrou um mundo de emoções
Ao som de um batuque que lá do longe
Nos ofertava os delírios de ancestrais iniciações
E nos oferecia lições de aprender a viver
Em tempos a que só o tempo sabia responder.
--
Hoje sentei-me debaixo de tiEmbondeiro
E, ainda que por momentos,
Fiquei imóvel, esmagado, chão terreno
A olhar-te como quem entende esse segredo
De seres tão grande e tão pequeno
E de me fazes sentir este imenso degredo
De só te poder viver nos sonhos de um aceno.
Mas, ainda assim, vivi, sonhei, abri asas e gritei.
E cavalguei no dorso das gazelas
Subi ao penhasco das águias, soltei-me, planei com elas
Bebi água com o leão, entre javalis e zebras
Descansei à sombra dum elefante, ouvi o choro das hienas
Fui mais alto que as girafas, fui animal de mil raças.
E entre bandos multicolores em acrobacias de perigo
Voei horizontes de azul rasgados a vermelho vivo
Para lá da tela do sol-pôr que me ofertavas
Enquanto, deleitado, debaixo de ti me abandonava
Ao sabor da brisa que canta o imenso hino
Que, de tão intenso, cabe numa simples semente de tamarindo.
--
Hoje sentei-me debaixo de tiEmbondeiro
E, ainda que por momentos,
Fui livre na criança que te aprendeu a pinceladas de negro
E se fez homem nos encantos da mulata em requebro
Em batucadas de feitiço vestidas de mil saris
E revestidas com cânforas de cheiro e óleos subtis
Emolduradas pelos olhares dos longínquos mandarins,
Que me fizeram crescer entre o carrinho de arame e lata
E a lângua de matope onde pescava cacanas cor de prata
No tempo em que as cobras eram simples animais
E me ofereciam de prazer todos os pecados originais
Herdados directamente da estirpe de Gungunhana
Imortalizados nos vermelhos fortes de Malangatana.
E eu sonhava com manchimbombos amarelos em ilusões abertas
Que rumassem a um futuro de saudáveis descobertas
Da harmonia dos cheiros de África e dos orientais incensos...
Mas que o homem, abruptamente, manchou de fatais contra-sensos.
--
Hoje sentei-me debaixo de ti...Embondeiro
E, ainda que por momentos...Revivi!
Depois..., parti.
*****
António San

.4.05


*****
Dourado
*****

Fiz-me membro executivo
Desse teu clube privado
Sócio único, cartão dourado
Só para te prender, ser sonhado
Que me trazes desesperado
E, de tanto querer penado,
Que já não sei que recado
Te hei-de dizer sussurrado
Nem por quem ser enviado
Porque és anjo, mulher, pecado
No meu caminho colocado
Que me fazes sentir alado
E me ofereces o mundo inexplorado.
*
Fiz-me membro executivo
Desse teu clube privado
Para ter o prazer redobrado
De te ter só a meu lado
E no silêncio do olhar melado
Nos perdermos no céu estrelado
Nas ânsias do dar premeditado
Como quem flutua num bailado
Só por nós dois autografado.
*Fiz-me membro executivo
Desse teu clube desejado
Num impulso descompassado
De tanto querer ser amado.
*****
António San

29.3.05

*****
Reencontro
*****
Hoje fiz tudo ao contrário.
Contei estrelas num rosário,
Adormeci a noite e acordei a janela
À espera da madrugada.
E como ela tardava,
Sai, fui ao encontro dela.
Descobri que a chuva também a esperava.
Olhámo-nos os dois em silêncio, enquanto a noite partia
E a madrugada se espreguiçava.
E a chuva beijou-me como já há muito não me beijava
E abraçou-me como já há muito não me abraçava,
De mansinho, com doçura.
E, num ímpeto de ternura,
Escorreu por mim afagos infantis...
Carícias que se escondiam na lonjura,
Daquele tempo da terra quente, perfumada,
Onde a chuva era a minha amada
E me oferecia laranjas a cada madrugada
Em aromas de papaia e de goiabada
E eu comia a manga verde salgada.
Hoje fiz tudo ao contrário,
Fiz amor com a minha alma,
Voei alto da minha palma,
Li um livro até ao fim.
A lareira crepitou-me cheiros de capim,
Tambores tocaram-me horas de cetim...
E gozei a imensa calma,
De haver dias pintados assim,
Que me fazem viajar por dentro,
Em tons de cinza tão aberto,
Que trazem a criança para mais perto.
Hoje fiz tudo ao contrário...
Fiz tudo certo!
*****
António San

25.3.05


*****
Paixão
*****

Estou em T,
De palmas abertas para te receber
No mundo que te quero oferecer.
E cravas-me um prego de indiferença
Neste abraço de envolver.
-
Estou em silêncio,
Porque te quero contemplar.
E tu, cabelos ao vento e rosto de não ver,
Cravas-me espinhos no olhar,
Como quem já de mim não quer saber,
Como quem já por mim não vai sofrer,
Como quem já de mim se vai perder.
-
Estou em paixão,
Por ti, amor cálido de Verão,
Que de Outonos me vestes
E aos Invernos me deste
Sem sequer quereres saber
A tortura que por ti é padecer.
-
Estou em agonia,
Porque te dei meu coração amor
Que quis fosse teu, com fervor.
E espetas-me lanças de desprezo
Que mais de ti me fazem preso
E à tortura de tanto te amar.
-
Estou com sede,
Das palavras que sonho ouvir-te,
Embrulhadas em doces dádivas,
Recheadas de mil parábolas
Onde somos nós os redentores.
E dás-me vinagre amor,
Tentas secar-me a fonte de te querer
Como quem já de mim não quer saber
Como quem já por mim não vai sofrer
Como quem já de mim se vai perder.
-
Mas estou aqui amor...
Em T de paixão e agonia de sede,
De palmas abertas para te receber,
De olhar fixo para não te perder,
De coração aberto para te oferecer,
Os lábios sequiosos de te convencer.
-
Vem amor,
Porque em mim
Te hás-de voltar a saber,
Te hás-de voltar a encontrar,
Te hás-de voltar a amar ...
Para eu nunca mais te perder.
E então sim amor,
vale a pena por ti...
morrer!
*****
António San

8.3.05

*****
Nostalgia
*****

Possuí-te assim Lisboa por entre ruas e vielas
Fui o rufia da esquina que te bebia a ginga com elas
-
Vivi-te assim Lisboa, marinheiro das sete partidas
Quando te comprava as noites em encruzilhadas de mil vidas
-
Pintei-te assim Lisboa, Maluda em pano-cru
Vela desfraldada ao vento em que sonhámos, eu e tu
-
Viajei-te assim Lisboa dos carris de um cais qualquer
Em eléctricos desejos, das tuas curvas de mulher
-
Mas mato-te agora Lisboa em galopes de várias cores
Cavalos de sangue na sarjeta amortalhados de dissabores
-
Relembro-te então Lisboa no pregão de uma varina
Procuro e já não te encontro o ar de namoradeira ladina
-
Choro-te sem fim Lisboa num refrão dum fado antigo
Sou o Marceneiro e Amália, guitarra no infinitivo
-
Acaricio-te ainda Lisboa, os sete seios de prazer
Sete pecados mortais, sete formas de te reviver
-
Sonho-te ainda Lisboa, moura de encantos outonais
Que no Tejo buscava rima com que me beijava madrigais
-
Bebia-te então Lisboa no quente cacau da Ribeira
Alvorecer adolescente de uma eterna vez primeira
-
Esqueço-te agora Lisboa, cidade "shopping" florescente
Quando respiro e te sinto, mulher amante tão ausente
-
Porque só te amo assim Lisboa, cidade luz em branca alvura
Se nos acordes deste nosso fado ainda houver alguma candura.
-
***
António San

26.2.05


*****
Maria (a)penas
*****
Sobes a calçada Maria
Cruz na vida das cruzes ferrugentas
Das dores que carregas e aguentas
Nas horas feitas de dias.
*
Paras na calçada Maria
Olhas a montra desse mundo
De que és só espectadora
Dum terceiro balcão imundo.
*
Desces a calçada Maria
Para mais um empurrão mecânico
Nas dobradiças empenadas
Do salário mínimo do pânico.
*
Morres na calçada Maria
À espera do melhor dia
Em que seja mais conveniente
Levarem-te tão-somente.
*****
António San

22.2.05

*****
Grito
*****
Fazes-me falta...
Na torrente deste sentir
Que me tira da monotonia.
E por mais que feche os olhos
E te sonhe em delírios de paixões,
Nada substitui
A perfeita sincronia
Do afago de dois corações
Em total entrega de emoções.
--
Fazes-me falta...
No toque suave e profundo
Da carícia em que cada olhar
Revela em nós, um novo mundo
Uno.
--
Fazes-me falta...
No sorrir dos meus desejos,
No preencher dos meus anseios
Com essa tua doçura
Feita de gestos maneiros.
--
Fazes-me falta...
No espaço e no ser,
No desejar e no querer
De ser em ti o florescer
Deste deserto de te perder.
--
Fazes-me falta...
Vem, amor, sem demora
Tenho a mão aberta ao tempo
Em dádivas de verde esperança,
À espera da nossa hora.
*****
António San

16.2.05

*****
Saber-te
*****

Renasci.
E, como quem abre janelas
E quebra as amarras do vento,
Voo para ti,
Ao encontro de mim.
Sem sequelas
Nem tormento.
Porque te sei encantamento,
Em valsa de doce momento
Eternizada para além dum tempo,
Maior que o firmamento.
E porque te quero presença,
Que deste renascer me enlouqueça
Com doces afagos em que me esqueça
Que sem ti, tudo é ausência,
Clamo por ti,
Em chamamentos de insistência
Lançados a ventos Xis,
Perfumados de essências subtis.
*****
António San

14.2.05


*****
Amor Maior
*****

Olhaste-me para a alma
Como quem abre uma janela
E perguntaste-me quem eras.
E eu, apanhado de repente
Fiquei assim, adolescente
E disse-te tão simplesmente
Que eras... a mais Bela
--
E bailámos nas palavras da nudez
Falámos com carícias de avidez
Fomos margens por mais de uma vez
Deste querer em que já não crês.
--
E na loucura dos desatinos
Navegaste-me pelos sentidos
Feitos de prenúncios incontidos,
Que transparecem na tez .
--
E, como quem pinta na tela,
Cores que me afagam gemidos,
Beijaste-me... pela última vez
E partiste em serena mudez...
Simplesmente por seres...
A mais Bela.
*****
António San

11.2.05
*****
Vazios de ti
*****

Quando procuro e não encontro
Esse teu sorriso de árias
E as ondas, num murmúrio
Me afagam pegadas solitárias...
É o silêncio que me dói.
*
Quando em sonhos te enlaço
Porque da realidade me perdi
E na cama fria só abraço
O perfume que ainda há de ti...
É o silêncio que me dói.
*
Quando a manhã me desperta
Do que a noite me ofertou
E é o sol quem me aquece
O frio corpo que já te amou...
É o silêncio que me dói.
*
Quando Ravel entoa em mim
Os Boleros em que me dei
E as guitarras trinam gemidos
Deste fado que não desejei...
É o silêncio que me dói.
*
Porque és só aroma errante,
Quando te quero mulher presente
Corpo, perfume e alma que encante
Esta loucura de quem sente...
É só silêncio, o que me dói.
*
Porque silêncio...
É tudo o que não me fala de ti!
***
António San

4.2.05


*****
Hoje e só Hoje
*****

Ninguém leva a mal
Se rasgar o peito e mostrar
A cor da minha fantasia
No brilho do meu viajar
Pelo sorriso do teu olhar
Gravado em melodias de sonhar.
*
Ninguém leva a mal
Se por uma vez deixar de lado
A alegria com que mascaro
O tão perto e o tão longe
Com que pintas o meu viver
Em tons de vivo querer,
Sem te poder.
*
Ninguém leva a mal
Se desmascarar os sentidos
E me der em fluidos
Aos sonhos interrompidos
Nas memórias do morrer.
*
Afinal hoje e só hoje...
Ninguém leva a mal
Pensam que é por ser...
Carnaval!
*****
António San

31.1.05


****
Fusão
*****

Perdi-me de mim
E, sem saber de onde vim
Fiquei sem tempo nem idade.
Só porque o meu olhar
Se cruzou com o teu,
Naquele instante, na cidade.
E foi tal a intensidade
Em doce linguagem
Que todo o tempo
Foi,
Viagem...
António San

31.1.05

*****
Força
*****
Maria da Graça tem a graça
De deixar atrás de si, quando passa,
O perfume de setenta e picos primaveras.
E o ar, esse, fica mais cheio
Daquele sorriso de raça
Que nem o tempo quis apagar
Do rosto que o sol moldou
No sal da vida que passa.
*
Às vezes, senta-se na praça
Descansa olhares vagos, distantes,
Nos risos contagiantes
Dos petizes que por lá brincam.
E Maria da Graça, perdendo a graça,
Ainda se sonha, assim criança,
Na adulta que sempre foi.
Que até mesmo as risadas
Soltas em infantis gargalhadas
Eram sempre para conter
O choro faminto e triste
Dos que depois dela, lá em casa,
A vida pariu, para sofrer.
*
De letras nada sabe
Porque sempre lhe disseram
Que as mãos serviam para fazer
E a cabeça só para ver.
E Maria da Graça sonhava,
Como qualquer outro ser,
Em ser quem por a vida passa,
Em vez de a ver correr.
Mas nem o sonho duma casa,
Que tanto a fez querer,
Mudou, do destino, a traça
Com que a vida a viu nascer.
E, por maldição ou quebranto,
Viveu Maria da Graça em pranto
A ver a vida madrasta
Desfazer-lhe o pouco encanto
Do nada que conseguia ter.
Olha para trás e, por desgraça,
Vê que em nada deixa a marca
Que outros lhe possam ler.
Infeliz de quem a vida destinou
A não poder provar o gosto
De ver, no papel transposto,
A graça que Deus lhe deu.
*
Mas um dia Maria da Graça,
Ao ouvir os risos na praça,
Dos petizes que por lá brincam,
Levanta a cabeça do breu
E abre as mãos de só fazer
Para agarrar, da vida baça,
O pouco, que quer só seu.
E, na força com que se faz raça,
Num gesto que a ultrapassa,
Apaga do destino a desgraça
De tanto viver sem deixar traça.
*
Mestre-escola... por favor?
Chamo-me Maria da Graça
Tenho, do que a vida me ensinou,
Cicatrizes de amargo sabor,
De tanto olhar pela vidraça.
*
E agora, Maria da Graça,
Com letras de avidez
É tempo de quebrares a vidraça
E recontares, com a tua graça,
O sonho de menina-garça,
Mas começando por..."Era uma vez..."
*****
Esta é a singela homenagem a todas as Marias da Graça que, com garra, nos dão grandes lições de querer e de viver.É, também, dirigida aos formadores e organizadores locais do ensino e educação de adultos deste país, pela entrega e carinho com que desenvolvem o seu trabalho.O meu bem-haja a todos.

António San

25.1.05

.....
Dádiva
.....

Ah...,pudesse eu mostrar-te
O cheiro do aroma com que te sinto
E o tom da cor do meu desejo
E seria espaço em ti
Sem limite nem fronteira
Doce ou amarga.
Seria tão só e simplesmente...
Existência!.....
António San

25.1.05

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Ideia
-----

Apoderas-te de mim, acutilante
E num passo de valsa estonteante
Rasgas-me em horizontes inacessíveis
Com sussurros agridoces quase inaudíveis.
E prometes-me ser musa amante e mãe,
Das palavras por que me tens refém
Paridas em turbilhões de sete ventos
Que queres sejam só minhas, por momentos.
Insinuas-te, feiticeira, dádiva de fêmea ardente
E eu entoo-te canções de júbilo e de pranto
Que me fazem render a este já tão grande quebranto
Com que me enfeitiças de forma permanente.
E cruzo-me contigo nas forma do espaço sideral,
Gozo a tua génesis e trespasso-a na sintaxe
Teço-te façanhas de modo desigual, sou parcial
Construo-te ou destruo-te nos prazeres do meu enlace
E dou corpo e vida ao teu sussurro inicial.
Estou preso a ti por pulsão umbilical
E tu, ligada a mim sem normas ou matriz
Ambos, em devaneios de coito transcendental
Legamos descendência em forma X......
António San

sábado, outubro 15, 2005

Nasci!